Roberta Miranda é carregada pelas novatas do sertanejo, durante a gravação de seu DVD Foto: Reprodução de internet


“Eu poderia ter abraçado qualquer segmento da música. Poderia ser sambista, cantora de MPB, o que eu quisesse. Mas me apaixonei perdidamente pela música sertaneja, muito por causa da minha mãe, que ouvia bastante o som de raiz. O que eu fiz lá atrás, as mulheres da nova geração estão fazendo hoje”, afirma Roberta Miranda, que completa 30 anos de carreira neste 2017 e, para celebrar, convidou os novos nomes femininos do gênero musical para participarem da gravação de um DVD comemorativo. Marília Mendonça, Maiara & Maraisa, Simone & Simaria, Day & Lara e Naiara Azevedo cantaram ao lado da anfitriã e confirmaram, no palco, o que a veterana tem orgulho de repetir.

— Todas elas falaram que a sofrência que interpretam hoje teve origem na Roberta Miranda. Eu sempre cantei as questões do amor, a traição, a única diferença com relação a elas, na minha opinião, é a batida do arranjo. Foram 20 anos de tentativas atrás de uma outra cantora sertaneja, até descobrirem a Paulinha (Paula Fernandes) e, agora, as meninas que o Brasil inteiro conhece — complementa Roberta, que carrega o título de Rainha da Música Sertaneja: — Ouvi isso pela primeira vez no final da década de 1980. Fiquei muito emocionada, mas sempre achei que não merecesse. Relutei muito para aceitar, mas foi o povo que me consagrou. Tenho muitos sucessos na boca dos fãs, graças a Deus!


Além das já citadas, nomes como Bruna Viola (foto acima), Paula Mattos e as gêmeas Júlia & Rafaela, de apenas 15 anos, formam o movimento que convencionou-se chamar Feminejo: cantoras com discurso empoderado, de base feminista, são o auge da música sertaneja na atualidade.

— Cantamos o que a gente vive, o que as amigas vivem, mostramos a força da mulher brasileira. Se ela quiser beber, vai beber; se quiser trair, vai trair; se quiser sair, vai sair. Ser porta-voz dessa libertação social é uma alegria muito grande — afirma Simone.

As irmãs baianas Simone e Simaria
As irmãs baianas Simone e Simaria Foto: Divulgação
Não à toa, a paranaense Naiara Azevedo explodiu nacionalmente com “50 reais”, cujos versos falam de vingança: “Não sei se dou na cara dela ou bato em você/Mas eu não vim atrapalhar sua noite de prazer/ E pra ajudar a pagar a dama que lhe satisfaz/ Toma aqui uns 50 reais”.

— Eu cantei o que eu vivi, coloquei a raiva para fora, foi libertador. Depois, acabei descobrindo, com o imenso retorno o público, que flagras de traições são muito mais comuns do que imaginava — conta.

Naiara Azevedo explodiu com a vingativa “50 reais”
Naiara Azevedo explodiu com a vingativa “50 reais” Foto: Divulgação
Doutor em História e autor do livro “Cowboys do asfalto — Música sertaneja e modernização brasileira”, Gustavo Alonso sublinha:

— A hegemonia da temática “pegação” e do amor afirmativo é relativamente nova na seara sertaneja, vem de 2005 pra cá. O fato de as mulheres também adentrarem essa poética ajudou a dar continuidade ao Sertanejo Universitário, superando origens agrárias e, quase sempre machistas, como em todos os gêneros nascidos no campo.

Antes de estourarem como dupla sertaneja, as baianas Simone e Simaria foram backing vocals do forrozeiro Frank Aguiar.

— Hoje, a gente não tem fãs, mas torcedoras. Essa galera se apaixonou pelo nosso trabalho no primeiro instante, nos segue desde então, luta por nós. As mulheres se descabelam, choram, são apaixonadas — conta Simaria.

Paula Mattos
Paula Mattos Foto: Reprodução de Instagram
Além das letras cheias de autoestima, a “subversão” delas passa pela própria imagem, como enfatiza a matogrossense Maiara:

— Nós sempre fomos fora dos padrões de beleza que se vê nas capas de revista. Somos baixinhas, gordinhas, não temos os olhos claros, mas nos achamos bonitas, sim. A mulherada se identifica com a gente porque se vê refletida em cima do palco.

Nem a vaidade nem a competitividade atrapalha esse novo movimento, garante Maraísa:

— Não existe rivalidade alguma entre a gente, ao contrário, neste meio temos de nos unir sempre, é isso que vem fortalecendo o sertanejo ao longo de tantos anos. Somos todas colegas de estrada.

Maria Cecília faz dupla com Rodolfo
Maria Cecília faz dupla com Rodolfo Foto: Leo Matsuda/Divulgação
Em carreira solo nesse mercado, Marília Mendonça destacou-se primeiro como compositora, quando, ainda menor de idade, teve a música “Crime perfeito” gravada por João Neto & Frederico. Também levam os créditos da goiana “É com ela que eu estou”, conhecida na voz do falecido Cristiano Araújo, e “Cuida bem dela” e “Até você voltar”, hits de Henrique & Juliano.

— Demorou muito para a mulher conquistar esse espaço que os homens têm nos palcos do Brasil. Mas é fato que eles me ajudaram demais, gravando minhas composições. Assim, as pessoas começaram a conhecer Marília Mendonça — diz a Musa da Sofrência, cujo hit “Infiel” foi a segunda canção mais tocada em rádios brasileiras no ano passado (atrás de “Seu polícia”, de Zé Neto & Cristiano), segundo a Crowley, empresa especializada em monitorar estações de rádio em vários países.

Marília Mendonça, a Musa da Sofrência
Marília Mendonça, a Musa da Sofrência Foto: Roberto Moreyra
Marília também ocupa o 12º lugar, sendo a 1ª entre os sertanejos, no ranking do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição dos direitos autorais) com os autores de maior rendimento em shows, em 2016. Com apenas 21 anos, ela é a poderosa da vez no mercado sertanejo.

— Embora eu tenha maturidade para muitas coisas, como ter minha própria equipe, cuidar da minha família e cantar/compor letras de música fortes, sou muito nova. Eu me considero um pouco impulsiva e às vezes quero ser apenas aquela menina que tem muita coisa para aprender — confessa a loura.

Thaeme faz dupla com Thiago
Thaeme faz dupla com Thiago Foto: Divulgação
E FEZ-SE A MULHER

A participação da mulher na música sertaneja não é novidade. Nos anos 1940, havia Inhana, da dupla com o marido Cascatinha, e as irmãs Galvão (citadas na primeira reportagem deste especial como a mais antiga dupla sertaneja em atividade no país). Nos 50, Inezita Barroso. Nas décadas de 80 e 90, fomos apresentados a Roberta e Sula Miranda (apesar de carregarem o mesmo sobrenome, as duas não têm parentesco). Depois, nos anos 2000, conhecemos Paula Fernandes, Cecília (da dupla com Rodolfo) e Thaeme (da dupla com Thiago).

— O que há, agora, é uma quantidade expressiva de artistas, várias delas compositoras, e um interesse por esse tipo de arte, comercialmente — explica Alonso: — Não havia nas gerações anteriores essa estética do amor afirmativo, do individualismo ultraexacerbado. Inezita era associada à tradição. Roberta Miranda, aos bolerões dor-de-corno. A novidade é a mulher cantar tudo isso agora e isso ser visto como algo normal, desejável.

As Galvão: mais antiga dupla ainda em atividade
As Galvão: mais antiga dupla ainda em atividade Foto: Divulgação
Mas qual será a expectativa de vida do Feminejo? Uma nova fase já está começando a ser escrita nesse segmento musical?

— A música sertaneja vive de ciclos e reconstrói sua popularidade a cada dez ou vinte anos. Este movimento atual pode acabar em vitória ou derrota. Se ganhar essa longa batalha, transformar-se-á em museu, o que seria ótimo para as artistas do Feminejo. A derrota me parece improvável, porque é um movimento social amplo, que está para além da música sertaneja. Para saber se vai durar, é preciso analisar se esse discurso conseguirá transformações concretas na sociedade — finaliza Alonso.

Sula Miranda
             Sula Miranda Foto: Marcos Corazza/ Divulgação/ 28.08.1997


 
Jornal Extra


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