Dado Schneider participou de evento em Pernambuco em 2015 - Hans Von Manteuffel / Agência O Globo





BRASÍLIA - Uma das palestras mais esperadas desta quarta-feira na Campus Party é a do publicitário e professor Dado Schneider. Campuseiro convicto, ele dispensa o hotel oferecido pela organização e acampa. É um ritual desde a primeira edição do evento há dez anos. Isso só aumentou o número de fãs que esperam em fila para fazer selfies depois de cada palestra. Ele diz que o segredo para conquistar esses seguidores é falar como um tio mais novo e descolado e não repetir a mesma ladainha dos pais.


Para prender a atenção do público, Schneider não diz uma palavra nos primeiros 30 minutos da exposição. Apenas apresenta slides com músicas pop em um volume ensurdecedor. Antes de ir para São Paulo, Dado conversou com O GLOBO em Brasília. Fez previsões para os próximos cinco anos. Aposta que ninguém está preparado para o período disruptivo que está por vir. Espera mudanças na educação e até uma onda de suicídios. Segundo ele, quem vive apegado às ideias e ao modo de vida do século XX não suportará viver na próxima década. 
 
Vislumbra ainda alterações radicais nas profissões tradicionais e um mercado de trabalho exclusivo para quem entendeu o novo tempo. Sobre startups, ele diz que pode ser uma saída para os desiludidos com a profissão e com a carreira. E ainda aposta que a nova linguagem universal será os emojis, os símbolos usados, principalmente, nas mensagens de celular. 

O GLOBO: Por que os próximos 5 anos serão disruptivos ?

DADO SCHNEIDER: Nós já estamos vivendo esse período disruptivo desde a popularização do iPhone e seus concorrentes, no final da década passada. Segundo os jovens da Geração Z, “isso já faz muito tempo"! Assim, a mobilidade acabou se tornando mais importante do que tudo o que havia acontecido até então em termos de computador, internet etc. O smartphone propiciou o surgimento dos símbolos atuais de disrupção: Uber, Spotify, Airbnb – e todos os que estão sendo criados agora, neste momento, no mundo todo.


Quem não está preparado para isso?

DADO: Ninguém está preparado para as mudanças. As pessoas mais velhas — estamos falando das pessoas de 35 anos para cima — têm uma defasagem digital. A defasagem digital não é mexer em equipamentos, mas é lidar com o compartilhamento de informações. É ter como natural o que as gerações mais novas já tem. Essas gerações mais novas têm uma defasagem de acúmulo de informações diárias e cultura. Não há mais a reunião da família diante de uma tela diariamente. E, quando foi cada um para um canto da casa, perdeu-se a troca de comentários sobre o que está acontecendo no dia a dia. Tenho alunos de pós-graduação que não sabem nada de nada do que está acontecendo. Vão sair pós-graduados em uma coisa só. Eles não estão preparados.

É apenas quem não consome notícia ou que não está antenado para as mudanças digitais que não está preparado?

DADO: Costumo dizer que, não faz muito tempo, velho era velho, resistente à mudança, e que jovem era jovem, aberto ao novo. Diferenciávamos-nos por idade. Hoje, há jovem-jovem, mas também há jovem-velho. Há velho-velho e velho-jovem. É uma questão de mentalidade. E quem vive apegado às ideias e ao modo de vida do século XX não está preparado para o século XXI, que é muito mais complexo, exigente e veloz do que o século anterior. Quem não fizer um esforço, urgentemente, para se atualizar quanto a comportamento, idéias, técnicas, conhecimento (principalmente, do mundo digital), diversidade, entre outros, não suportará viver na próxima década.

O que acontece com as pessoas que continuam a estudar para ser formados em profissões tradicionais e que podem sumir daqui para frente ?

DADO: Conhecimento é ótimo e sempre será um fator diferenciador no futuro, mas "ter canudo” não necessariamente. No Brasil, ainda se vive, em muitas famílias, o fascínio por ter membros que formados em universidade. Isso vem do Brasil do século XX, onde “doutor” era quem se formava. Coisa de século passado: pessoas diferenciadas por título – mas não por conhecimento propriamente dito. Eu prevejo uma revolução nesse conceito, com uma supervalorização do conhecimento em detrimento do título. Isso tem a ver com a dança das profissões, uma vez que não vai haver tempo hábil para se estruturarem cursos completos em universidades que formem profissionais para as novas atividades que estão para surgir. E, paralelamente, muitos dos cursos que hoje são ofertados pelas universidades terão declínio acentuado em sua procura, não conseguindo se reinventarem a tempo.

O que quem presta vestibular agora deve pensar ?

DADO: Deve procurar buscar muito conhecimento e extrapolar os limites da faculdade para a qual está prestando vestibular. Isso passa não somente pela sua conduta como estudante, indo além do que lhe é exposto em aula e propiciado pelo curso. Deve buscar novos conhecimentos em outras plataformas para esse novo mercado de trabalho – o da década que vem, o qual será apenas para quem entendeu o novo tempo em que estamos vivendo.

Montar startup é uma saída para o mercado de trabalho?

DADO: Eu tenho uma opinião que pode estar contramão em relação ao que se fala sobre este tema. Nos meus 30 anos como professor, sempre estimulei meus alunos a ingressarem o quanto antes no mercado de trabalho. Leia-se aí inclusive estágios não-remunerados. Isso para que pudessem ter uma vivência profissional completa, aprendendo o que se deve fazer e o que não se deveria, como lidar com pessoas difíceis e com adversidades provocadas por elas, além de aprender a se relacionar em um ambiente de trabalho sadio ou não. De posse desta experiência, que eu sugeria que durasse os primeiros três anos de faculdade, aí sim, às vésperas de alcançar o tão sonhado canudo, então partir para uma empresa própria – que hoje se chama “startup”, pois fica mais chique.


Isso funcionará no Brasil?

DADO: Muitas das novas empresas que têm surgido no Brasil não têm as mesmas características de suas similares americanas, por exemplo, que normalmente servem de parâmetro para matérias na imprensa e para estudos de cases nas faculdades. Num ambiente de total receptividade para que surjam, como lá, elas parecem ser a tendência para uma mudança de início de carreira. Sim, porque minha geração, a Baby-Boomer (1945-62), foi mundialmente educada para ser empregada por alguma empresa bacana e para lá fazer carreira. Só que, nesse país complicado como é o Brasil, percebo que há muita gente desiludida com os rumos de sua carreira ou, o que é pior, que não vê perspectiva na profissão para a qual estão estudando na faculdade e, daí, partem para uma startup. Mas não são todas, pois já há muitos casos bem sucedidos de startups nacionais com a cara global das similares que fazem sucesso nos países mais desenvolvidos.

Por que você prevê uma onda de suicídio ?

DADO: Isso eu falei e minha badalada Palestra Muda 3.0, na Campus Party Brasil. Pedi à platéia que não isolasse esta frase, mas que a compreendesse dentro do contexto todo da palestra. Então, como já dei uma pista em minha segunda resposta desta entrevista, vou tentar me explicar. É que vejo que muita gente – muita gente mesmo – e de todas as idades, classes sociais, além de base cultural diversa, não consegue compreender o século XXI, não consegue acompanhar o seu ritmo, não se permite abrir a cabeça para as radicais mudanças comportamentais surgidas e não vê chance de que isso possa mudar no futuro. Quando uso a imagem do suicídio para ser mais contundente, pode ser que isso seja substituído por isolamento social ou até mesmo geográfico, gente que vai viver bem longe do que possa ser parecido com a vida do século XXI. É uma espécie de uma nova casta, os Amish ou Luddistas modernos, que insistem em viver no século XX. Mas creio que dar fim à própria vida será uma das soluções mais simplistas e mais difundidas dentro deste grupo social – e isso é para daqui a 10 ou 15 anos. Infelizmente.

O que mais deve ser disruptivo nos próximos anos?

DADO: Acho que os emojis, essas imagens que traduzem sentimentos e que são cada vez mais utilizadas nas redes sociais, são um novo Esperanto. E, mesmo sabendo que os amantes deste idioma ficam contrariados com a minha comparação, eu vou um pouco além. Os emojis serão, sim, ampliados e se consolidarão como o Esperanto do século XXI.





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