Maestro Alex Klein preparava uma surpresa aguenta-coração quando me convidou para conhecer ao vivo, em cores e em sons as atividades do projeto que ele montou e dirige em João Pessoa, Cabedelo e outras cidades da Paraíba. Trata-se do Programa de Inclusão através da Música e das Artes (PRIMA), um projeto paraibano de orquestras jovens, que também inclui corais e bandas, já está presente em nove cidades e ensina música instrumental a cerca de 1.200 crianças e adolescentes (com o objetivo de atingir 10 mil jovens nos próximos 5 anos!). Todos os participantes estão matriculados regularmente em escolas públicas.


Maestrino Erenilson afina corda de violoncelo com diapasão eleetrônico


PRIMA é um programa que utiliza a música como ferramenta para a inclusão social e disponibilização de oportunidades para crianças e adolescentes do Estado da Paraíba, especialmente aquelas de regiões carentes. E haja criança carente nessas regiões! O programa é coordenado pelo Maestro Alex Klein, responsável pela sua gestão e implantação, bem como pelo acompanhamento pedagógico, e tem como diretor executivo o músico e gestor cultural, Milton Dornelas.

“O PRIMA é sonho antigo do atual governador Ricardo Coutinho, e ele o implementou assim que assumiu o governo”, explica Alex Klein ao volante do seu carro quando me conduz à região de Cabedelo. O maestro – que também toca oboé e é considerado um dos melhores oboístas do mundo – não esconde seu entusiasmo pela empreitada que dirige: “O programa hoje tem um corpo docente de 50 profissionais que ensinam música a cerca de 1.200 crianças e adolescentes. O foco principal não é ser uma simples escola de música. Trata-se, muito mais, de uma verdadeira escola de vida, um trabalho de inclusão através da música, das artes e de uma certa sabedoria existencial”.


Maestro Klein e aluna de oboé


Alex Klein não exagera em suas expectativas. Pude verificar, logo depois, sobretudo ao conversar com vários alunos integrantes do PRIMA, as transformações que esse trabalho provoca na mente e nos corações daqueles jovens. Sem dúvida, o projeto abre portas para futuros cidadãos paraibanos e no meio surgem alguns talentos musicais, jovens que um dia poderão decidir cursar faculdade de música, por exemplo. Mas isso está longe de ser tudo: o PRIMA rapidamente se transformou numa segunda família – às vezes a única família – para muitos de seus integrantes. Dando apoio, compreensão e proteção  a seus jovens membros, o PRIMA automaticamente lhes insere no caminho da conquista de uma identidade própria que, passo a passo, à medida que a iniciação musical avança, mais e mais se amplifica, se aprofunda e adquire contornos próprios. Ouçam este depoimento dado por um garoto estudante de trompa. Quando o Maestro Klein o chamou para conversar comigo, informou: “Aos sete anos, esse menino estava numa feira aqui em Cabedelo, ao lado do pai, quando este foi assassinado durante uma rixa. O garoto entrou para o PRIMA logo depois. Ganhou uma trompa e desde então ele a carrega para todos os lugares onde vai. Não larga dela nunca”.




Tô começando a virar gente
“Como eu era antes de entrar para o PRIMA? Não era ninguém. Era uma sombra que passava pela rua”. Foi exatamente assim que aquele garoto respondeu a minha pergunta. “E como sou hoje? Acho que tô começando a virar gente”, completou, puxando a trompa para bem perto de si.
Por causa desse e de outros pequenos porém grandíssimos episódios digo que ir à Paraíba para conhecer o PRIMA foi uma viagem aguenta-coração. É mole? Ouvir de um órfão de 9 anos que se via apenas como uma sombra que passa na rua, que agora, graças a uma trompa dourada, e tudo que ela representa, ele já se sente um pouco gente?!


 A plenos pulmões, o naipe de trumpetes do PRIMA de Cabedelo
A plenos pulmões, o naipe de trumpetes do PRIMA de Cabedelo

Confiram no final desta reportagem, no vídeo caseiro que fiz, outros depoimentos de jovens membros do PRIMA.
Os polos do PRIMA em João Pessoa estão instalados em escolas públicas estaduais nos bairros de Alto do Mateus e Bairro dos Novais. Em Cabedelo existem polos nas comunidades do Jacaré, Renascer e Fortaleza de Santa Catarina. Com três anos de funcionamento o PRIMA também já instalou polos em Santa Rita, Guarabira, Campina Grande, Itaporanga, Patos, Catolé do Rocha e Cajazeiras.


Catalina Guevara Klein desvenda os mistérios da primeira oitava para meninas de um mini coral
Catalina Guevara Klein desvenda os mistérios da primeira oitava para meninas de um mini coral


Carmina Burana? Isso é coisa que gostaria de ver
Dentro do roteiro de visitas, Alex Klein me conduziu a uma sala de aula de escola situada em um dos polos. Lá dentro estava Catalina Guevara Klein, sua esposa, dando aula para um pequeno grupo de meninas. A mais velha delas certamente ainda não completara 10 anos. “Queremos montar um trecho da cantata Carmina Burana, de Carl Orff, e precisamos de um mini coral de vozes infantis muito agudas. Por isso estamos preparando essas garotas. Em seis meses elas deverão estar prontas para entrar em cena”, explicou Alex Klein. “Carmina Burana? Isso é coisa que gostaria de ver”, pensei, imaginando o tremendo desafio que a empreitada representa.

Sentei numa cadeira de estudante, atrás das garotas, e me concentrei na aula de Catalina. No quadro-negro ela desenhara, com giz, a tradicional escadinha de uma oitava: dó, ré, mi, fá, sol, la, si, dó. E Catalina apontava para o primeiro dó, o mais grave, cantando o som correspondente: “Dooooooó!


 Catalina e as integrantes do mini coral de vozes muito agudas
Catalina e as integrantes do mini coral de vozes muito agudas


Repitam: Dooooooó! Agora, no primeiro andar: Reeeeeeé! E no terceiro andar do prédio: Miiiiii! E voltem para o andar térreo: Doooooó! Pulem direto para o terceiro: Miiiiii!”  Isso durante horas, de dó a dó, até que cada nota estivesse bem implantada nas memórias sonoras das garotas…

Professora Catalina, tiro o chapéu. Haja paciência e dedicação! Ainda mais quando Catalina Guevara Klein, que nasceu e se formou musicista em seu país natal, a Costa Rica, é uma fagotista que poderia estar tocando em qualquer grande sinfônica do mundo. Em vez disso, prefere, como o marido, usar parte considerável do seu tempo e energia para resgatar crianças e adolescentes brasileiros carentes, através do aprendizado teórico e prático da música…




Dizem os grandes mestres que apenas as histórias exemplares merecem ser contadas. A história do Projeto PRIMA é, sem dúvida, exemplar… A tal ponto que chamou a atenção do secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do MinC, Henilton Menezes. A visita foi feita em Cabedelo, e se fez a pedido da ministra da Cultura Marta Suplicy.  A ministra, por seu lado, fora apresentada ao projeto pelo secretário de Cultura da Paraíba, Chico César, em maio do ano passado.

Marta Suplicy demonstrou interesse em conhecer melhor os fundamentos do programa e assim estudar as possibilidades de alargar o projeto, tido como caso de grande sucesso no estado. O interesse é natural: o PRIMA é especial, e não apenas por causa do seu objetivo de fazer com que jovens carentes  estudem música e tenham a possibilidade de se profissionalizar na área, sempre com vistas à inclusão social. Ele é especial também na forma como atua e nos efeitos benéficos imediatos que acarreta. A essência do projeto consiste em aulas com professores de música em classes diárias e no horário oposto ao da escola. Com isso o jovem é retirado das ruas, ou de um convívio muitas vezes difícil no seio da família, para ser inserido num grupo que recebe um ensinamento musical individual e coletivo. Essa vivência musical e social traz bons resultados imediatos no rendimento escolar e até mesmo na convivência familiar.


 Erenilson e Daiane, duo de clarinetas sob os olhos do maestro
Erenilson e Daiane, duo de clarinetas sob os olhos do maestro


Como funciona o programa  
O PRIMA é inspirado no Sistema de Orquestras Juvenis e Infantis da Venezuela, criado nos anos 70 pelo maestro José Antônio Abreu. Atende a jovens estudantes da rede pública de ensino e funciona em parceria com os municípios e prefeitura do estado. Está distribuído em polos de ensino localizados em áreas carentes e que funcionam em escolas públicas, associações e prédios históricos.
Cada polo de ensino oferece aos seus alunos a oportunidade de aprender instrumentos orquestrais e participar em grupos que variam entre orquestras jovens e infantis até bandas e corais, incluindo adultos, onde se envolvem também as famílias dos jovens atendidos.


Trumpetistas do PRIMA a postos
Trumpetistas do PRIMA a postos


Além de ter os ensinamentos dos professores, os alunos vão aprendendo e passando aos colegas o que já sabem. Os mais experientes e dedicados passam a atuar como verdadeiros professores, recebendo inclusive uma ajuda de custo e pequenos salários. Foi assim que o jovem Erenilson Ferreira se tornou o regente da Jovem Orquestra de Cabedelo (JOC). Ele faz parte do PRIMA há cerca de três anos. Apesar de ter pouco tempo na orquestra, Erenilson já lidera a equipe de músicos e vê um futuro promissor para si e os demais jovens que fazem parte do programa. “O projeto resgatou os meus sonhos e me dá novas oportunidades. Aprendi a querer mais da vida e também a trazer as pessoas que estão andando por caminhos tortos para o caminho da música”, contou Erenilson.
 

Naipe de fagotes
Naipe de fagotes

Para Chico César, o PRIMA “é empoderamento”
Para o secretário de Cultura da Paraíba, Chico César, é preciso perceber o papel transformador e revolucionário que o PRIMA carrega. “Esses instrumentos são armas de uma conquista muito forte para esses jovens. É empoderamento”, afirma.

É, sobretudo, um exemplo poderoso de responsabilidade social, sobretudo para cidadãos individualmente, bem como para empresas e organizações e para governos e administrações que, embora tendo condições de fazer mais e melhor para o resgate da cidadania de milhões de crianças e adolescentes brasileiros literalmente jogados às traças, preferem permanecer de braços cruzados e nada fazer.
 

Catalina Klein e professores diante de escola que abriga o PRIMA em Catolé do Rocha
Catalina Klein e professores diante de escola que abriga o PRIMA em Catolé do Rocha


Como no caso do FEMUSC – Festival de Música de Santa Catarina, também dirigido pelo Maestro Alex Klein, que acontece todos os anos em Jaraguá do Sul, reunindo durante 15 dias cerca de mil estudantes de música nacionais e estrangeiros, e que foi criado e é mantido pela comunidade civil de Jaraguá do Sul, o PRIMA paraibano decidiu que é preciso agir, aqui e agora, se quisermos que este país, através da música, das artes ou de qualquer outro meio educativo válido, realmente tenha um futuro.

Na última etapa da visita, Alex Klein conduziu-me a uma grande sala de aula. Lá dentro, os alunos mais adiantados estavam reunidos para ensaiar nada menos que  a Trepak – Dança Russa, da suite Quebra-Nozes, de Tchaikovsky. Com regência do jovem maestrino Erenilson. E então para mim ficou claro o que Chico César quis dizer quando afirmou que o Projeto PRIMA é empoderamento. Pois se não é poder a força capaz de tirar da rua um menino paraibano para fazê-lo tocar Tchaikovsky, então nada mais é poder na face deste planeta Terra.


Grande grupo de alunos reunidos para aula coletiva
Grande grupo de alunos reunidos para aula coletiva




 
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